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Apontamentos da Selecção Caminhos II


Há uns anos quando Kia­ros­tami nos mos­trou o público de Shi­rin, ficá­mos com uma visão dife­rente daquilo que era cinema e espec­ta­dor, do que era a catarse e o sen­ti­mento expresso na face daquele que se isola acom­pa­nhado na sala de pro­jec­ção. André Gil da Mata con­se­gue ir mais longe, indo até à sala de pro­jec­ção mos­trando-nos Sena e o seu quo­ti­di­ano de pro­je­ci­o­nista jugos­lava, com o amor pelo cinema e pela memó­ria colec­tiva da arte cine­ma­to­grá­fica com o pre­texto e metá­fora de Eva Ras. Em Como me apai­xo­nei por Eva Ras” deam­bu­la­mos entre tempo his­tó­rico, caí­mos numa rea­li­dade sem linha cro­no­ló­gica exacta, numa home­na­gem ao cinema em geral e ao jugos­lavo em par­ti­cu­lar. Ao pro­je­ci­o­nista mítico e à Sena que é real, viva e com bio­gra­fia pau­tada pela par­ti­lha do filme e da con­versa.

macabre

Hoje merece ainda des­ta­que a ani­ma­ção Maca­bre” de Jeró­nimo Rocha e João Miguel Real. Sendo ini­ci­ado por um aci­dente de carro para esca­par de um ani­mal sel­va­gem, K. depressa é for­çado a entrar num serão soturno e labi­rín­tico, com cla­ras influên­cias Kaf­ki­a­nas. Há um pro­cesso infin­dá­vel e uma meta­mor­fose con­tí­nua, uma ideia de vida/​existir inex­tri­cá­vel (mas cons­tan­te­mente ini­ciá­tica) mar­cada pelo pro­cesso da morte. Morte aqui repre­sen­tada por uma des­cida (ou queda) e pela busca cons­tante do Eu, que por vezes é aquele que nos mata.

gelo

Ainda den­tro da temá­tica do tempo, do espaço e cumu­la­ti­va­mente da sua ausên­cia ou capa­ci­dade de os sal­tar, encer­ra­mos o dia com Gelo” de Luís e Gon­çalo Gal­vão Teles. É a exis­tên­cia de dois fil­mes den­tro do mesmo, reche­ado pelo mis­té­rio e fic­ção cien­tí­fica. O entre­la­çar de duas vidas, a do amor ao cinema e a da vida apa­ren­te­mente eterna. Sendo o filme sobre escape, há a fuga do amor e a pos­si­bi­li­dade de o (re)encontrar num espaço não físico como o oní­rico, que acaba por ser seme­lhante ao mundo inte­rior des­per­tado pelo cinema.

Mais um dia em que se vê o cinema por­tu­guês cele­brado. Mais um dia de novi­dade para o espec­ta­dor.

Até já,

João R. Pais,

Selec­ção Cami­nhos

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