6ª Crónica

Animação  

Existe um sector significativo de cinéfilos e estudiosos de cinema que consideram ter a sétima arte nascido antes das primeiras sessões dos irmãos Lumière, mais precisamente quando em 1892 Emille Reynaud projectou imagens em movimento no museu Grévin, em Paris, recorrendo ao seu teatro óptico, evento que antecedeu as sessões do Salon Indien, de Dezembro de 1895.

 

Mesmo discordando desta opinião, o espectáculo de Reynaud em que cenário e personagens habitavam suportes distintos, movidos de modo independente e de forma manual o que na prática significava a inexistência do “objecto-filme”, há que reconhecer o pioneirismo percursor desta iniciativa e admitir que terão sido de facto as primeiras imagens em movimento projectadas perante uma audiência e, uma vez que o suporte era desenhado em papel, inscreveram-se obviamente no campo da animação.

No nosso país, a primeira animação de que há memória “O Pesadelo do António Maria”, de Joaquim Guerreiro, de 1923, foi “reconstruída” por Paulo Cambraia a partir dos desenhos originais, devolvendo-nos um documento de inestimável valor, exibido à época como parte integrante de uma revista.

Sem nunca ter assumido foros de indústria, como sucedeu aliás com qualquer género do cinema no nosso país, a animação registou alguns sucessos notáveis, sobretudo a partir da década de oitenta, com trabalhos como “Os Salteadores” de AbiFeijó, “Shshsh – Sintonia Incompleta” de Mário Jorge, “Estórias do Gato e da Lua” de Pedro Serrazina,”A Noite” de Regina Pessoa e “A Suspeita” de José Miguel Ribeiro, todos eles distinguidos em festivais e competitivos a nível internacional.

O crescente desinteresse dos anunciantes pela publicidade, a perda de fóruns televisivos como os programas de Vasco Granja, algum envelhecimento do excelente festival que é o Cinanima, levaram a alguma quebra na produção de animação no nosso país, em termos de quantidade mas sobretudo de qualidade, de que é franco reflexo a selecção de trabalhos de animação nestes Caminhos do Cinema Português.

Aguardam-se dias melhores para a animação, um riquíssimo género cinematográfico em que o criador mais se assemelha a um deus: tem de criar não só as personagens, mas também os sons, os cenários, enfim tudo aquilo que se oferece aos olhos muitas vezes fascinados do espectador.