Brava Dança

Brava Dança foi exibido ontem à tarde nos Caminhos. Trata-se dum documentário que não só devemos enquadrar no campo das qualidades, mas primeiramente, no campo das necessidades. O cinema português desespera por criadores que façam justiça aos actores do nosso século XX.

José Francisco Pinheiro e Jorge Pereirinha Pires tomaram para si a missão de garantir para os Heróis do Mar um lugar visível na história recente do país. O que é justo, pois este grupo que singrou nos anos oitenta, fez ele próprio um esforço para afirmar a história do país no seu tempo contemporâneo.

Assim, como se preserva uma memória? A resposta, evidentemente, é que todas as formas são aceitáveis desde que eficazes. O que interessa neste momento é perceber o caso particular deste documentário. Nesta medida, os realizadores usaram um método claro que pode ser separado em dois pontos: fidelidade e correcção.

Para responder ao primeiro ponto, os realizadores aproximaram-se das fontes tanto quanto possível. Neste caso, isto significa que toda a narração é da exclusiva responsabilidade dos protagonistas, o que é uma vantagem que possuem os documentários sobre temas dos anos oitenta, em contraponto, por exemplo, a um documentário sobre uma certa senhora que fazia um assado de javali entretanto desaparecido no século XIV. Desta feita, podem os Heróis do Mar dizer de sua justiça, questão especialmente importante quando se trata duma banda que por tantas confusões e misticismos passou. Ao longo de todo o documentário, aquilo a que assistimos, é ao discurso dos protagonistas, rodando o pescoço, olhando para trás, revivendo e digerindo o passado.

O segundo ponto – a correcção – refere-se à ideia de que um bom serviço prestado à história é o serviço de desmistificar as suas incorrecções. É por isso que neste documentário assistimos ao reposicionamento ideológico da banda, ao se rejeitar a polémica em torno de Heróis do Mar como questão política - ideia de que existiu um país onde existiu uma banda fascista a seguir a uma revolução em nome da liberdade. Tal versão política da polémica é aqui rejeitada em nome da versão artística ou ideológica dessa mesma polémica, versão essa, digamos, bastante mais interessante. Segundo tal versão, os Heróis do Mar, ao aliarem a vertente musical à vertente da performance, optaram por um discurso irónico num país incapaz de lidar com a sua própria representação e, como se afirma no documentário, incapaz de distinguir as personagens dos actores. Os Heróis do Mar quiseram mexer as águas em Portugal, e, perante a secura intelectual da resposta que obtiveram, quase se afogaram nelas. Mais tarde, arrumaram a questão pondo o país a dançar com maxi-singles como “Amor” ou “Paixão”. Fizeram então as pazes com as massas. Mais tarde ainda, terminaram porque sentiam que estava esgotado o seu conceito, como esgotado está o conceito dum movimento anarquista que se torne partido político e vá a eleições…

Estamos próximos do 25 de Abril, dia em que haverá uma discussão sobre Cinema e Revolução, integrada nos colóquios dos Caminhos, e não deixa de ser curioso, pensar, à luz do caso particular de Heróis do Mar, que a liberdade não é apenas estar dentro ou fora duma prisão, ter um açaime na boca ou correr pelo espaço vazio. A liberdade possui também uma componente intelectual e uma componente de responsabilização ideológica. Visto e revisto o documentário – e não esquecendo que ele nos dá apenas o ponto de vista da banda - as reacções e a intolerância contra Heróis do Mar não terão sido o melhor exercício de liberdade. Não tanto pela sua intensidade, mas sobretudo pelo grau de precipitação, um mal crónico deste Portugal. Ainda assim, Heróis do Mar quiseram intervir na sociedade e fizeram-no. Deixaram marcas.