Crónica Quando os Sentimentos

- Crónica de Opinião -

Quando os Sentimentos e as Ideias vão ao Cinema

No constante deambular entre festivais e até chegar a Coimbra passei sucessivamente por San Sebastian, FIKE e Faial, por onde foi tema comum, ouvido de cineastas de todos os cantos do mundo, a escassez de dinheiro para a Cultura, o Cinema, a Vida. Mas isso não impediu ninguém de fazer filmes, mesmo que tivesse de transformar a família em equipa  de produção, como fez Bahman Ghobadi, ou andar a pedir de porta em porta, como me relatou uma jovem cineasta independente norte-americana.
Em Portugal, há o ICA, Instituto do Cinema e do Audiovisual, cujos jurados cumprem directivas absurdas para tentar atribuir subsídios a produtores que se limitam a concorrer à “sopa dos pobres”, sem terem de apresentar resultados, nem justificarem o bom o mau resultado das obras produzidas que apenas os poderão penalizar no concurso seguinte.

Para que a “velha guarda” continue a fazer os seus filmes, mesmo que (quase) ninguém os vá ver, ficam de fora os mais jovens que “ainda não deram provas” (e por esta via nunca darão) e não têm a sorte de ser produzidos por alguém com cotação elevada que, uma vez atingida, tem a vidinha garantida para si, a família e os amigos.

Antes de vir para Coimbra, assisti no Faial à exibição duma encomenda da Casa de Serralves, “Os Painéis de São Vicente de Fora”, trabalho do quem lera referências elogiosas de figuras nobres da nossa crítica.No ecrã exibiu-se um dos piores actores portugueses da actualidade, tranvestido em São Vicente e pouco depois um Infante Dão Henrique, no corpo de Diogo Dória, rodeados dum conjunto de personagens de segundo plano que conseguiram desencadear sonoras gargalhadas da assistência ao longo dos 16 minutos em que se arrasta interminavelmente.

O filme é uma tentativa de resposta à questão elevada e centenária do realizador sobre porque raio o Vicente aparece num dos dois painéis centrais com o livro fechado debaixo do braço e no outro com o livro aberto. O Faial ficou esclarecido e a comédia foi um pleno sucesso. O filme foi tema da noite a e a cerveja o resto.

O filme não está presente nos Caminhos do Cinema Português, o que é lamentável, como não está o mais recente de Margarida Gil que não o inscreveu e critica desbragadamente em tudo quanto é blog público o desprezo a que foi votada, do mesmo modo que a produtora Marginal Filmes, agora abrilhantada com o Oliveira Jr. bancando de “sniper”, também acusa os “Caminhos” de terem cortado as pernas a Quero Ser Uma Estrela, potencialmente o “maior sucesso português do cinema de todos os tempos”.
Ora isto é uma bolsito do chamado cinema português que, felizmente para todos nós, é algo mais do que isso.

Foi exibido em Coimbra Um Funeral à Chuva, de Telmo Martins, de que ouvira referências muito pouco abonatórias, coisas do tipo “macaquearam os Amigos de Alex” e outras, embora estranhamente ocupe a terceira posição do box-ofice dos nacionais.
Ora acontece que um filme sem o tradicional “chuto” de 700 mil euros, nem sequer um apoio (mínimo que fosse) à promoção e divulgação, o que faz sentido porque “já que não nos esfolaste o apoio à produção, também não te ajudamos a divulgar o filme”, encheu a sala do TAGV, viu a projecção premiada com aplausos & lágrimas, desencadeou uma hora de debate e projectou-se pela noite fora como uma super nova.

Claro que agora a produtora terá de saldar a dívida perante a banca ao pesado juro que se sabe, verá o seu filme colectado em 3 vezes o IVA dum produto de consumo  normal e, ironia das ironias, descontar uma percentagem para o “apoio à produção audiovisual” de que não usufruiu!Estranhamente, os elementos presentes desabafaram sem lamechices, pretendem continuar a fazer filmes e, sublime milagre, por uma noite um filme sem o logótipo do ICA, levou sentimentos e ideias ao cinema.