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Crónicas da Programação – VI


17h30
Se tivéssemos a capacidade de observar de fora o interior da intimidade das habitações, descobriríamos com exactidão a verdade. No interior dessas casas, essa verdade surgiria despida de máscaras exigidas pela sociedade, tendo a capacidade de mostrar seres por inteiro, independentemente do que isso implique. Hoje no TAGV mostra-se cinema íntimo e real, revela-se essa capacidade de entrar em casas documentadas e ficcionadas, fazendo-nos perder no caminho do meio que serpenteia ambos os géneros cinematográficos.

Necessita ser realçada, na sessão das 17h30, a obra ‘Em Branco’, onde Luciano Sazo nos leva para o íntimo de uma doença. A pressão e a intensidade apresentadas pelo apoio familiar desembocam na perda de um foco de vida. Por muito difícil que se apresente lidar com as exigências do quotidiano, a tarefa torna-se mais árdua quando o escopo da atenção passa para uma pessoa com Alzheimer.

Em ‘ISA’, Patrícia Delgado leva-nos para um exemplo claro do que o exterior nem sempre é congruente com aquilo que se passa na realidade da intimidade. Isa apresenta-se no teatro fórum com hipóteses teóricas para a harmonização dessa privacidade, que na sua vida íntima se manifesta de forma desarmoniosa.

A sessão é encerrada com ‘Gipsofila’, onde assistimos a um trabalho conjunto entre realizadora e documentada. Nesta obra, Margarida Leitão marca a sua biografia cinematográfica com um registo da cumplicidade entre ela e a sua avó. Este possante registo, que eternizará estes momentos juntas, pega na realizadora para a frente da sua câmara, juntando-se à estória que nos mostra, construindo-a ao mesmo tempo. A linha entre o real e o ficcionado, entre o filme e a sua vida, confundem-se em fundem-se nesta obra.

21h30
Na sessão da noite voltamos a 1984 com ‘Deus Providenciará’. Luís Porto apresenta-nos uma mente desordenada e em dissídio, recheada de conceitos previamente pespegados pela herança judaico-cristã do nosso país. A liberdade do pensar e do corpo é colocada em causa pela pressão em volta da protagonista (Isabel Abreu), que acaba por achar que não dar à luz poderá ser o mais negro dos pecados.

Destaque ainda para ‘Yvone Kane’, de Margarida Cardoso, uma obra que nos faz questionar o significado dos mistérios do passado, quando esses fazem parte do nosso legado familiar. Começar a descortinar o que violentamente existia antes de nós, implica uma luta viciante pela descoberta, no caso sobre a morte de Yvone Kane. O palco desse descobrimento é um país africano, habitado por fantasmas do passado histórico da guerra e da maldade.

João Pais,
Selecção Caminhos