Crónica Novo Cinema Português”, porquê?

- Crónica de Opinião -

 

Num país sem condições para ter uma indústria de cinema, como afirmou recentemente Fernando Lopes, pode parecer estranho que tenhamos passado de pioneiros, quando Aurélio Paz dos Reis, conseguiu convencer os Lumière a venderem-lhe uma câmara em 1896, a um estado que mais do que sucessão de crises recorrentes, mais parece uma virose endémica, com breves períodos de tréguas na relação cinema/espectadores.

Mas o certo é que os esforços se foram sucedendo ao longo dos 115 anos de vida do cinema para que o nosso país não tivesse uma cultura amputada da mais jovem e popular forma de arte, a mais democrática arte do século XX.

Na época salazarista nasceram os estúdios Tobis, hoje em sérios riscos de encerrarem as portas, a despeito dos inúmeros movimentos que tentam salvar uma peça única do património nacional e de que os Caminhos já tiveram uma excelente visão, através do documentário “Tobis Portuguesa”, de Manuel Mozos e Pedro Éfe, dois nomes à margem de qualquer suspeita, na negociata que o eventual encerramento proporcionará. Esta edição dos Caminhos programou muito oportunamente a Retrospectiva Cinema Novo, com cinco filmes emblemáticos do movimento que mudou o curso da história do cinema em Portugal.

Cortando radicalmente com uma cinematografia ao serviço do regime, assente basicamente em comédias para entreter o público, afastando-o dos reais problemas do país, um grupo de cineastas da geração de sessenta deu início a algo que mudaria definitivamente o rumo do cinema no nosso país.

Foram pioneiros a ficção “Dom Roberto”, realizada por Ernesto de Sousa em 1962, e o documentário “Almadraba Atuneira”, realizado por António Campos em 1963.
O primeiro contou com as participações de Raul Solnado, Nicolau Breyner e Rui Mendes, foi produzido através dum movimento cineclubista lançado pelo realizador através da revista Imagem, estreou no cinema Império em Lisboa a 30 de Maio de 1962 e obteve a consagração no Festival de Cannes de 1963, com um a Menção Especial do Júri.

O segundo é um trabalho independente, dum cineasta que assim se manteria, abrindo uma excepção para a sua única ficção. “Terra Fria”, um filme menos conseguido porque “só sabia trabalhar sozinho ou em equipas mínimas”, com meios e a expensas próprias., chegando ao ponto de adquirir um furgão Citroën H do S.A.A.P., Serviço de Abastecimento de Peixe ao País, criado por Henrique Tenreiro, adaptando-o de modo a transportar o equipamento de filmagem, revelar a película e editá-lo, trabalhando em qualquer lado e exibindo o filme de imediato.

A Retrospectiva Cinema Novo começou na passada segunda-feira com “Sofia e a Educação Sexual” de Eduardo Geada (1974), exibiu ontem “Brandos Costumes” de Alberto Seixas Santos (1975), hoje é a vez de “Perdido por Cem…” de António-Pedro Vasconcelos (1973), na quinta-feira será projectado “O Cerco” de António da Cunha Telles (1970) e fechará com chave de ouro, exibindo o documentário “Belarmino” de Fernando Lopoes (1964).

À margem da competição e apresentados no início das sessões, quando os realizadores, o desejam, um ciclo absolutamente a não perder para quem queira saber como ganhou o cinema português um estatuto internacional, de que está longe de desfrutar dentro de portas.