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Valorizar Coimbra!


Enten­de­mos que Valo­ri­zar Coim­bra” passa tam­bém pela par­ti­lha de dis­cur­sos e refle­xões sobre a ges­tão cul­tu­ral autár­quica cons­truindo-se as bases para uma melhor inte­gra­ção dos agen­tes cul­tu­rais da região no quo­ti­di­ano da nossa urbe. Desta forma redis­tri­buí­mos a cró­nica de José Augusto Fer­reira da Silva publi­cada no Diá­rio As Bei­ras4 de Julho de 2017. Valo­ri­ze­mos então Coimbra!

Come­ça­ram as Fes­tas da Cidade, anun­ci­ando-se nove dias de ani­ma­ção. Come­çou a Feira Popu­lar, ini­ci­a­tiva com tra­di­ção em Coim­bra, que se veio man­tendo ao longo dos anos gra­ças à lou­vá­vel resi­li­ên­cia da Junta de Fre­gue­sia de Santa Clara. 

Enten­de­mos que as fes­tas são muito impor­tan­tes como ele­mento dina­mi­za­dor e agre­ga­dor da vida comu­ni­tá­ria e na medida em que con­tri­buem para o desen­vol­vi­mento eco­nó­mico e para o pres­tí­gio de uma cidade ou região. Há pois que não des­va­lo­ri­zar estes impor­tan­tes momen­tos da nossa vivên­cia coletiva. 

Mas se isto é assim, não pode­mos dei­xar de olhar, no ano em curso, para alguns aspe­tos par­ti­cu­la­res des­tes dois even­tos, uma vez que têm a marca da atual gover­na­ção municipal. 

Depois de ata­ques fero­zes aos gas­tos do PSD/​CDS nas Fes­tas da Cidade no ano elei­to­ral de 2013, em con­traste com as come­mo­ra­ções pou­pa­di­nhas” da atual mai­o­ria, a que, durante três anos, assisti enquanto vere­a­dor, eis que o orça­mento para 2017 (ao que se sabe, de cerca de 300 000,00€) é, pro­va­vel­mente, o mais ele­vado de sempre. 

Depois das guer­ras fei­tas à Junta de Fre­gue­sia de Santa Clara /​Cas­telo de Vie­gas no que res­peita à orga­ni­za­ção da Feira Popu­lar e seus cus­tos, viva a festa que este ano, depois de alguma con­tro­vér­sia entre os res­pon­sá­veis das duas autar­quias, tem acesso gratuito! 

Será que este tipo de com­por­ta­men­tos anó­ma­los, repe­ti­dos à exaus­tão em anos elei­to­rais, são com­pen­sa­do­res para quem os pra­tica? Creio, sin­ce­ra­mente, que não. Ouve-se, cada vez de forma mais gene­ra­li­zada, a repro­va­ção dos cida­dãos. E por que os repe­tem os res­pon­sá­veis locais? Por­que não são capa­zes de fazer dife­rente. Por­que pre­fe­rem a rotina pre­gui­çosa a uma ação base­ada no estudo e refle­xão. Por­que con­ti­nuam a pen­sar que com papas e bolos se enga­nam os tolos”! 

Por isso, pre­fe­rem a festa, sim­ples de orga­ni­zar, de efei­tos ime­di­a­tos e espe­ta­cu­la­res — mas efé­me­ros — a uma ação cul­tu­ral per­sis­tente, de resul­ta­dos con­sis­ten­tes e dura­dou­ros, mas, por regra, muito menos espetaculares. 

A atual mai­o­ria que governa o con­ce­lho tem seguido, indis­cu­ti­vel­mente, o pri­meiro cami­nho. Aban­do­nou a Feira do Livro, que devia ser guin­dada a acon­te­ci­mento naci­o­nal (como ocorre com as de Lis­boa e do Porto), para fazer uma cha­mada Feira Cul­tu­ral”, híbrida, onde os livros são aces­só­rios de vul­ga­res fei­ras de arte­sa­nato e gastronomia. 

Quando podia e devia apos­tar no regresso dos Encon­tros de Foto­gra­fia, dada a dimen­são naci­o­nal e inter­na­ci­o­nal que alcan­ça­ram, usam-se pre­tex­tos eco­no­mi­cis­tas mes­qui­nhos para o não fazer; quando se devia e podia apos­tar num Fes­ti­val de Cinema de grande qua­li­dade, a par­tir dos Cami­nhos do Cinema Por­tu­guês“, esmi­fra-se o apoio para valo­res insig­ni­fi­can­tes, des­va­lo­ri­zando a valia do cer­tame; quando se podia e devia apoiar os agen­tes cul­tu­rais que gerem espa­ços muni­ci­pais, cri­ando con­di­ções mate­ri­ais para o desen­vol­vi­mento da sua ati­vi­dade cria-se antes toda a sorte de difi­cul­dade e de con­fli­tos; quando se devia apoiar, de forma sis­te­má­tica e con­se­quente, as asso­ci­a­ções que gene­ro­sa­mente fazem cul­tura com milha­res de cri­an­ças, jovens e adul­tos em diver­sas ati­vi­da­des, como música, dança, canto, expres­são dra­má­tica, etc., sub­me­tem-se as mes­mas a um con­curso buro­cra­ti­zado para um sub­sí­dio insignificante. 

E, final­mente, quando se espe­rava que após um pri­meiro ano expe­ri­men­tal na ges­tão do Cen­tro Cul­tu­ral e de Con­ven­ções Con­vento São Fran­cisco (CSF), se pas­sa­ria à con­so­li­da­ção da sua estru­tura de ges­tão e de pro­gra­ma­ção, esco­lhendo os prin­ci­pais res­pon­sá­veis atra­vés de con­curso público, con­ti­nua a assis­tir-se a uma ges­tão fula­ni­zada, bem como à ausên­cia de uma pro­gra­ma­ção criteriosa. 

Mas mais do que isso, con­ti­nua a inde­fi­ni­ção do papel de tão rele­vante infra­es­tru­tura, que absor­veu abun­dan­tes recur­sos finan­cei­ros comu­ni­tá­rios e muni­ci­pais, pare­cendo que se quer que sirva para tudo, mas que acaba por não ser­vir bem para quase nada, com gra­ves insu­fi­ci­ên­cias a nível da comu­ni­ca­ção e com um suba­pro­vei­ta­mento a nível da ocu­pa­ção dos espa­ços abso­lu­ta­mente indesculpáveis. 

É, pois, che­gado o momento de dizer não a este tipo de ges­tão muni­ci­pal. A pala­vra cabe aos cida­dãos. A par­ti­ci­pa­ção cívica é essen­cial à mudança de polí­ti­cas e a favor da valo­ri­za­ção da cultura.

José Augusto Fer­reira da Silva http://​www​.asbei​ras​.pt/​2017​/​07​/​o​p​i​n​i​a​o​-​v​i​v​a​-​a​-​f​e​s​t​a​-​o​u​-​a​-​s​u​p​r​e​m​a​c​i​a​-​d​o​-​e​f​emero

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